15 de junho de 2009 - A Câmara Legislativa do Distrito Federal-CLDF instalou-se na manhã de hoje no Auditório Dom João VI para a sessão solene de outorga do título póstumo de Cidadão Honorário de Brasília ao professor Carlos Mota, assassinado em 20 de junho de 2008. A autora da proposta, deputada Érika Kokay (PT-DF) juntamente com os demais membros da mesa, entregou a honraria assinada pelo presidente da CLDF, Leonardo Prudente (DEM-DF), à viúva Rita de Cássia Pereira, Coordenadora de Recursos Logísticos da Imprensa Nacional, que a recebeu ao lado de Marcelo Mota, pai de Carlos, em nome dos outros familiares presentes à cerimônia, como dona Irma, mãe do homenageado, além de filhos, irmãos e sobrinhos.
A presidente da sessão solene, Erika Kokay, dividiu a mesa com o senador Cristóvam Buarque (PDT-DF); o Diretor-Geral da Imprensa Nacional, Fernando Tolentino; a Secretária Adjunta de Educação do Distrito Federal, Eunice Santos; o Secretário de Educação Integral, Marcelo Aguiar; o Diretor do Sindicato dos Professores-Sinpro/DF, Antônio Lisboa; o Presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Particular, Rodrigo de Paula; o pai de Carlos, Marcelo Mota; e Rita de Cássia Pereira.
Antes dos pronunciamentos, o cerimonial projetou um vídeo com depoimentos acerca da vida de Carlos Mota, concedidos pelo Diretor-Geral, Fernando Tolentino; pela presidente da Asdin, Denise Guerra, e pelos servidores Humberto Borges e Rubens Cavalcante Júnior. No vídeo também constam entrevistas com a ex-diretora da Imprensa Nacional, Dinorá Moraes Ferreira, Rita de Cássia, Marcelo Mota, Daniele (filha), Cristóvam Buarque, Chico Vigilante, Wasny de Roure, professores da UnB e do Sinpro, entre outros.
PRONUNCIAMENTOS LOUVAM MEMÓRIA DE CARLOS MOTA
A deputada Érika Kokay reverenciou a lembrança de Carlos Mota como uma pessoa determinada nas suas ideias e flexível nas discussões com os outros. “Não lembro de tê-lo visto levantar a voz uma única vez”, afirmou. Ela recordou que o Centro de Ensino Fundamental Carlos Mota, nome atual da escola do Lago Oeste, pertencia de fato à comunidade, “qualidade que nenhum conteúdo pode expressar” e também lembrou o sonho de Carlos em transformar o estabelecimento na melhor escola rural da América Latina. “Temos uma alegria e uma tristeza muito grandes, porque poderíamos ter concedido este título ao Carlos ainda em vida. Que este título seja um reconhecimento eterno de cada um de nós”. Dirigindo-se a Rita, a deputada pediu que “carregue este título como um reconhecimento de Brasília a Carlos Mota e sua história”.
Rodrigo de Paula citou o Instituto de Educação Carlos Mota, uma homenagem da categoria realizada ainda em 2008. Segundo ele, o professor significa a figura de um sonhador por uma escola de qualidade. “Não deixem o sonho dele morrer”, rogou aos alunos da escola do Lago Oeste. Marcelo Aguiar anunciou que falaria menos como Secretário e mais como alguém que teve a honra de conviver com Carlos Mota, “um professor que via a educação além dos muros da escola, em uma cidade educadora. Eunice Santos disse que presenciou a força da mulher no vídeo e que o episódio demonstrou a força do pai. “Ninguém morre enquanto vive no coração da gente”, concluiu.
Fernando Tolentino mostrou-se honrado em recepcionar o evento na Imprensa Nacional, a segunda sessão solene realizada pela CLDF na Casa. Para ele, Carlos Mota é homenageado pelo que significou como compromisso, por ter feito pessoas diferentes, que “vão adiante de si mesmas”, que escolheu a política e o ensino como forma de recuperação das pessoas. “Muitos deixam saudade, poucos deixam lições. Carlos Mota deixa um legado de lições para a sociedade inteira”, resumiu.
Antonio Lisboa revelou que participava da quarta concessão do título de cidadão honorário de Brasília, mas a de hoje significava um pouco de justiça da cidade por uma pessoa que fez tanto em tão pouco tempo. “Carlos defendia a justiça no sentido amplo da palavra, era um militante das causas justas do mundo. Cada um de nós deve lutar pelos seus ideais”, exortou.
Cristóvam Buarque reconheceu duas dívidas com Carlos Mota, quando este o ajudou a criar a Escola Candanga e a fundar a ONG Missão Criança. Entretanto, continuou, estava ali para falar da dívida como brasileiro. “Carlos Mota morreu como um soldado, tentando barrar a invasão da barbárie nas escolas, a invasão da falta de amor que toma conta das nossas crianças, a violência física e moral contra os professores”. Na definição de Cristóvam, “essa invasão é um crematório de cérebros”. A solução apontada pelo Senador para levar a homenagem a Carlos Mota adiante é “não deixar a bandeira dele cair. Mais que um cidadão honorário, ele é um símbolo vivo da luta por um Brasil melhor”, finalizou.
DISCURSO DE RITA DE CÁSSIA É PONTUADO POR EMOÇÃO
Na abertura de sua fala, Rita simulou uma chamada em sala de aula. Dois alunos responderam “presente”. Em seguida ela chamou pelo nome de Carlos Mota e o auditório em coro também respondeu “presente”. Veja a íntegra do seu discurso:
“A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta as pessoas e as coisas que não têm voz.”
“Eu me atrevo a dizer que quando Ferreira Gullar escreveu esta poesia pensou em gente como Carlos Mota.
São 360 dias sem meu amado companheiro
São 360 dias sem o pai, sem o filho.
São 360 dias sem o educador Carlos Mota.
Mas eu me refaço, observo, penso e falo: vocês acabaram de responder presente para Carlos Mota.
E ele está presente. Esse meu luto se transformou em LUTA e tenho percebido que, apesar de estar sendo muito difícil viver dia a após dia sem Carlos, o quanto queremos melhorar, o quanto aprendemos com a dor. Tenho percebido o quanto queremos uma educação pública de qualidade.
O quanto nossa consciência, com esta tragédia toda, com esse tiro que foi dado também na educação pública, o quanto nossa consciência tem reagido.
Percebo como foi grande a contribuição de Carlos para com a educação, para com as causas sociais.
Percebo o quanto Carlos NÃO passou despercebido, o quanto Carlos não passou em branco por sua geração.
Somos, eu, especialmente Dani, João Vitor e Otávio Augusto, herdeiros da luta de Carlos. Herdeiros de seus ideais, suas convicções.
As pessoas perguntam a mim:
— A escola é violenta?
Eu respondo:
— A escola não é violenta. A escola é reflexo de uma sociedade violenta, a escola é reflexo do desemprego, da discriminação.
Eu espero que os educadores tenham seus direitos legais atendidos. Principalmente o direito a trabalhar com dignidade e paz.
Eu espero que a educação pública seja valorizada, seja priorizada, seja a porta aberta para a inclusão.
Eu espero que as políticas públicas no campo educacional sejam revistas e que a justiça social, como dizia nosso nobre educador Paulo Freire, “se implante antes da caridade!”
Eu espero que a justiça se cumpra e se dê ao seu tempo. Brevemente teremos o último julgamento. Todos vocês serão convidados.
Eu espero que vocês, vocês aí de uniforme façam a diferença no nosso Brasil como fez nosso querido professor Carlos.
Agradeço a presença de seus irmãos Marcelo, Marcos e Rômulo e, especialmente a presença de dona Irma, mãe de Carlos Mota, guerreira, cúmplice que teve a honra de conceber e dividir conosco um ser humano tão especial.
Gostaria de agradecer pessoalmente um a um, porém o tempo não me permite. Então, agradeço a todos pela paciência e presença e poder compartilhar comigo essa dor e esta luta.
Finalmente agradeço a Câmara Legislativa, especialmente à Deputada Érika Kokay, por iniciativa tão relevante e bela.
Carlos Mota não morrerá nunca!! Obrigada e que Deus nos abençoe”.
AUTORIDADES E SERVIDORES LOTAM AUDITÓRIO
Prestigiaram a solenidade também, o Ministro substituto do Tribunal Superior Eleitoral, Joelson Costa Dias; o Diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Agnelo Queiroz; a ex- Diretora-Geral da IN, Dinorá Moraes Ferreira; a presidente da Associação dos Servidores da Imprensa Nacional, Denise Guerra; o Padre Virgílio Uchôa, da Paróquia Nossa Senhora Mãe dos Migrantes, do Lago Oeste; além de muitos servidores e trabalhadores da Casa.
ALUNOS DE BRASÍLIA PARTICIPAM DA HOMENAGEM AO PROFESSOR CARLOS MOTA
Desde às 8h30 de hoje, a movimentação nos arredores do Auditório D. João VI já era intensa. Os alunos da Escola Classe 115 Norte, da Escola Ânima e do Centro de Ensino Fundamental Professor Carlos Ramos Mota transitavam pelo Museu da Imprensa e pelo Auditório D. João VI, onde, mais tarde, seria realizada a homenagem ao professor Carlos Mota.
Geralmente em grupos, eles conferiam a vitrine, exposta no saguão do auditório, com diversos objetos e escritos a respeito da história profissional e de vida do professor Carlos Ramos Mota, tais como fotos familiares, a dissertação do curso de mestrado na UnB, além de diversas condecorações, entre outros. Os estudantes mostraram-se curiosos ao entrarem em contato com as peças do nosso museu.O Museu da Imprensa recebeu ainda a visita do senador Cristóvam Buarque (PDT-DF), um dos primeiros a chegar à Imprensa Nacional.